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Para criadoras9 min

Canvas UGC: o que é e como podes trabalhar assim

Um perfil novo, dedicado a um só produto, a publicar todos os dias até um vídeo rebentar. Chama-se Canvas UGC, e do lado de quem grava é um ritmo de trabalho completamente diferente.

Criadora sorri à câmara enquanto mostra o ecrã do telemóvel com uma aplicação aberta.

Há um modelo dentro do UGC, os vídeos que gravas para as marcas usarem, de que quase não se ouve falar e que não se parece nada com gravar um vídeo, entregar o ficheiro e passar ao trabalho seguinte. Chama-se Canvas UGC, funciona à base de um perfil novo dedicado a um único produto, e do lado de quem grava é um trabalho tão diferente do clássico que merece um artigo só para ele.

O que é o Canvas UGC

No UGC clássico, a marca encomenda-te um vídeo, tu entregas o ficheiro e ela usa-o onde quiser, nos anúncios ou nas redes dela. No Canvas UGC monta-se outra coisa: abre-se um perfil novo, que não é o teu nem o principal da marca, dedicado só a um produto, e publica-se lá em contínuo, vídeo atrás de vídeo, dia após dia. O perfil é assumidamente do produto e tu és a cara e a produção. Quando um vídeo pega, não fica só a somar visualizações: a marca pega nele e põe-no a rodar como anúncio pago.

Porque é que uma conta nova pode rebentar

A pergunta óbvia é como é que uma conta acabada de criar, com zero seguidores, chega a milhares de pessoas. A resposta está na forma como o TikTok distribui, e não é especulação: o próprio TikTok explicou publicamente que nem o número de seguidores nem o histórico de vídeos com bom desempenho são fatores diretos da recomendação. Cada vídeo é avaliado por si, mostrado a um pequeno grupo de teste, e é a reação desse grupo, quantos ficam até ao fim, quantos comentam, quantos partilham, que decide se ele morre ali ou salta para um público maior.

Um vídeo publicado numa conta de ontem tem direito ao mesmo teste que um de uma conta com um milhão de seguidores.

É esta mecânica que torna o Canvas UGC possível: o modelo não precisa de construir audiência primeiro, precisa de dar ao algoritmo muitas oportunidades de teste. Isto também arruma o folclore do aquecimento de contas que vais encontrar por aí, os rituais de passar dias a navegar e a gostar de vídeos antes de publicar. O TikTok nunca confirmou nada disso; o que faz diferença real é a conta ser coerente, com nome, biografia e conteúdo alinhados num nicho claro, porque é isso que ajuda o algoritmo a perceber a que público mostrar os primeiros testes.

A matemática que ninguém te conta

Este modelo assenta numa verdade desconfortável: a maioria dos vídeos não vai pegar, e não faz mal nenhum. Publicam-se muitos, boa parte fica pelas poucas centenas de visualizações, e de vez em quando um rebenta sem ninguém conseguir prever qual, porque se soubéssemos à partida qual era, publicava-se só esse. Um vídeo que rebenta paga todos os que não rebentaram, e é por isso que o volume aqui não é preguiça criativa, é o próprio método.

Os números de quem já faz isto em escala lá fora dizem-no sem rodeios. Numa análise publicada por um destes programas, sobre dezoito mil vídeos publicados neste modelo:

1 em 100dos vídeos passa das dez mil visualizações
9 em 10das visualizações vêm do 1% de vídeos do topo
2xmais êxitos nas campanhas com vinte ou mais vídeos
Os vencedores não se escrevem. Encontram-se, e encontram-se a publicar.

O que muda para quem grava

Se vens do UGC clássico, quase tudo muda no dia a dia.

  • O ritmo. Em vez de uma encomenda por semana, grava-se em lote: numa sessão saem vários vídeos, com aberturas e ângulos diferentes do mesmo produto, porque o perfil precisa de comer todos os dias. Nos programas que já vivem disto lá fora, o normal anda entre dez e trinta vídeos por mês por criadora, curtos, de quinze a quarenta e cinco segundos, gravados e editados no telemóvel.
  • O desapego. O vídeo em que puseste mais amor pode morrer com duzentas visualizações e o que improvisaste em dez minutos pode rebentar. Custa ao ego e é normal; quem precisa que todos os vídeos corram bem não aguenta este modelo.
  • Os números. Aqui não entregas e desapareces: vê-se o que funcionou, repete-se o ângulo que prendeu e mata-se o que ninguém quis ver. Ler a retenção, a percentagem de pessoas que fica a ver, passa a fazer parte do trabalho.
  • O contrato. A conta não é tua, os vídeos ficam a viver num perfil do produto, e pagar vídeo a vídeo deixa de fazer sentido quando o trabalho é um caudal contínuo. Combina-se tudo por escrito antes: de quem é o perfil, o que acontece aos vídeos e como se paga a produção.

O que faz um vídeo pegar

Prever é impossível, mas os padrões de quem publica milhares de vídeos por mês repetem-se, e tudo se joga nos primeiros três segundos, antes de o polegar decidir continuar. As aberturas que mais prendem são conhecidas:

  • O número específico. Perdi vinte e três quilos em sessenta e sete dias prende mais do que emagreci imenso.
  • A ordem direta. Para de usar isto assim, e quem usa fica a ver porquê.
  • A opinião contra a corrente. Obriga quem discorda a ficar para responder.
  • O storytime, a história contada na primeira pessoa em que o produto entra a meio. Já houve uma app lá fora a chegar ao topo da loja em dois dias só com histórias destas, sem uma única demonstração do produto.

Depois há o sinal que as equipas experientes olham antes de tudo: os comentários. Um vídeo com muitas visualizações e comentários a menos é fogo de vista, e um vídeo cheio de gente a perguntar como é que eu faço isto ou onde é que se compra está a vender, mesmo com números mais baixos.

E uma nota importante para quem vem do UGC clássico: aqui o cru ganha ao polido. Um vídeo demasiado produzido lê-se como anúncio e morre no teste, e conteúdo gerado por inteligência artificial converte pior e o próprio TikTok o despromove.

Como se paga neste modelo

Os valores variam de programa para programa e de país para país, por isso o que interessa é conheceres os três modelos que vais encontrar:

  • A base por vídeo. Um valor fixo por cada vídeo publicado, que te protege porque recebes pelo trabalho feito.
  • O bónus por visualizações. Uma escada de prémios por patamares, dez mil, cinquenta mil, cem mil. Alinha toda a gente com o objetivo, mas sozinho é uma lotaria: lembra-te da matemática lá de cima, e um mês fraco pago só a visualizações é um mês quase a zero.
  • O pacote mensal. Um valor fechado pela produção contínua, que dá estabilidade às duas partes quando a relação é para durar.

E há uma coisa que convém dizer de caras: aqui, cada vídeo vale menos do que no UGC clássico, e faz sentido que valha. Não estás a entregar uma peça polida com direitos e exclusividade em cima, estás a produzir dezenas de vídeos rápidos por mês, sem produção pesada. A conta faz-se ao mês, não à peça, e somado tudo o que isto paga parece-se mais com um salário regular do que com os picos e as secas de quem vive de encomendas soltas. Para muita gente é essa a maior vantagem do modelo; para outra, é o que o torna pouco atraente. Convém saberes de que lado estás antes de entrar.

O arranjo mais saudável que se vê combina a base garantida, que paga o teu tempo, com o bónus que premeia os êxitos, ou fecha mesmo no pacote mensal. Desconfia de programas que pagam só a visualizações, e desconfia a dobrar de pagamentos combinados por fora ou de campanhas cujo orçamento se esgota antes de chegarem a pagar-te, que são as queixas mais comuns de quem trabalha nisto lá fora. Por escrito, sempre: o que é pago, quando, e o que acontece aos vídeos depois.

Quando um vídeo vira anúncio

O destino de um vencedor é deixar de ser só orgânico. O TikTok tem um formato chamado Spark Ads que transforma uma publicação normal em anúncio pago sem a tirar do sítio: o vídeo mantém o perfil, os comentários e as partilhas que já tinha, e passa a aparecer a quem a marca pagar para o mostrar. Como no Canvas a conta é do produto, este passo não precisa de autorizações nem de renegociações, a marca pega no vídeo que já provou que funciona e escala-o. E é por isso que um vencedor orgânico bate quase sempre um anúncio feito de propósito: não é magia, é seleção, porque só se paga para amplificar o que já passou num teste com público a sério.

Para que produtos isto funciona

O modelo não serve para tudo, e saber isto poupa meses. Onde ele brilha é em produtos de decisão rápida com resultado imediato e fácil de mostrar: aplicações, gadgets, consumíveis, coisas que se compram por impulso depois de vinte segundos convincentes. Onde ele não funciona é em compras pensadas, caras ou assentes em confiança, porque um vídeo curto de uma cara desconhecida não carrega uma decisão de milhares de euros, nem em serviços abstratos que não se conseguem mostrar em plano.

Se o produto se explica num gesto, serve. Se precisa de uma reunião, não serve.

O lado duro, dito de caras

Este artigo não estaria completo sem a parte desconfortável. O ritmo diário desgasta, e há semanas em que publicas todos os dias e nenhum vídeo descola, com o rendimento a depender do modelo de pagamento que aceitaste. As contas também não são eternas, porque as equipas cortam perfis com envolvimento fraco ao fim de algumas semanas, e o TikTok despromove quem publica conteúdo repetido ou não original, por isso copiar o mesmo vídeo para dez contas é caminho para o corte, não para o êxito. E há a linha da honestidade: neste modelo o perfil é assumidamente do produto, e é assim que deve ser, porque fingir ser uma consumidora comum que descobriu aquilo por acaso é o tipo de atalho que queima a conta, a marca e o teu nome ao mesmo tempo.

Como te preparas para trabalhar assim

Não precisas de esperar que te chamem para começar a treinar o músculo. Publica muito no teu próprio perfil, nem que seja um de treino, porque só a publicar em volume é que se aprende a não levar os falhanços a peito e a perceber o que faz alguém ficar a ver. Domina a edição no telemóvel, que neste ritmo não há tempo para pós-produção pesada. E guarda os teus números: quantos vídeos publicaste, quais prenderam e porquê, porque essa leitura vale mais numa conversa com uma marca do que qualquer vídeo bonito solto.

Onde é que isto existe

Este é o modelo por trás do Canvas UGC, o serviço em que abrimos um perfil dedicado ao produto de uma marca e o alimentamos em contínuo. Do lado das criadoras, trabalhar assim é para quem gosta de ritmo e de ver números a mexer, mais do que de polir um vídeo durante uma semana.

É este ritmo que te puxa?

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