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Para criadoras8 min

Como começar a fazer UGC em Portugal

O mercado encheu-se, os preços de entrada caíram e a IA já come o trabalho genérico. O que ainda resulta em 2026, contado por quem recebe candidaturas de criadoras todas as semanas.

Criadora a segurar um creme de rosto à câmara, em casa e com luz natural.

Em 2022 a receita era simples: um telemóvel, luz de janela, três vídeos de treino e estavas dentro. Essa receita ainda anda por todos os artigos sobre UGC, e quem entra agora a segui-la fica pelo caminho, porque o mercado mudou. Este é o artigo sem filtro, escrito por quem recebe candidaturas de criadoras todas as semanas.

Primeiro, o que é UGC ao certo

UGC vem do inglês user generated content, conteúdo criado por utilizadores. Na prática, é vídeo que gravas para uma marca usar como se fosse dela, nos anúncios e na página de produto. Não vai para o teu perfil, muitas vezes nem leva o teu nome, e o teu número de seguidores conta zero: quem contrata está a comprar o vídeo, não a tua audiência. A razão de este formato existir é que um vídeo teu, gravado à janela da cozinha com o produto na mão, parece uma recomendação e não um anúncio. É trabalho de produção, não de influência.

A verdade sobre o mercado em 2026

Agora, a parte que os outros artigos não contam: nos últimos dois anos entrou muito mais gente do que trabalho novo, e vê-se nas candidaturas que recebemos, na fila mais comprida para cada trabalho e nos preços de entrada a cair.

Ao mesmo tempo chegou a inteligência artificial, e uma marca consegue hoje gerar um vídeo com um avatar a falar do produto por uma fração do que custa uma criadora real, com muitas a usar isso para testar ideias em massa. O trabalho que a IA come primeiro é precisamente o mais genérico: uma cara a ler um guião para a câmara, sem produto na mão e sem vida à volta.

O que a IA não faz é o resto: o produto mesmo na tua mão, a tua casa verdadeira, o teu sotaque, uma reação que ninguém escreveu. E não faz outra coisa ainda mais valiosa, que é pensar como quem paga os anúncios. Uma criadora que entrega três aberturas diferentes do mesmo vídeo, para a marca testar qual prende, vale mais do que dez vídeos bonitos que ninguém consegue comparar.

Nunca foi tão fácil começar, e nunca foi tão difícil viver disto. A diferença está no ofício, não no equipamento.

O básico, despachado num parágrafo

Sim: um telemóvel dos últimos anos, uma janela grande, um tripé e um sítio silencioso, com atenção redobrada ao som, que é o que mais denuncia quem está a começar. Está dito, e não gastes dinheiro em mais nada para já, porque não é no equipamento que isto se ganha ou se perde.

Os teus primeiros três vídeos

Para te candidatares a seja o que for vais ter de mostrar trabalho, e ninguém te dá o primeiro trabalho para tu teres trabalho para mostrar. Resolve-se a gravar por tua conta, com produtos que já usas e que já tens em casa.

Escolhe três produtos diferentes e grava um vídeo para cada um, em formatos diferentes, porque quem te vê quer perceber se sabes fazer mais do que uma coisa.

  • Uma demonstração: pegas no produto, mostras como se usa e dizes numa frase o que é que muda.
  • Um testemunho: falas para a câmara sobre o problema que tinhas antes e sobre o que aconteceu depois.
  • Um unboxing, a caixa aberta pela primeira vez à frente da câmara, ou então um vídeo de rotina, em que o produto aparece no meio de uma coisa que farias na mesma.

Três exemplos reais, um por formato, de criadoras internacionais que trabalham nisto. Toca num vídeo para o veres no TikTok:

Agora o passo que quase ninguém dá, e que separa um portfólio a sério de um portfólio de treino: pega num desses vídeos e grava três aberturas diferentes para ele, o mesmo vídeo com três primeiros segundos distintos. É a estas aberturas que o mercado chama ganchos, e é assim que as marcas testam anúncios: uma candidata que entrega variações de gancho está a falar a língua delas antes da primeira reunião.

Grava tudo na vertical, a 9:16, e trata os dois primeiros segundos como o vídeo inteiro, porque num anúncio é aí que se decide se alguém fica. Começa pelo problema ou pelo resultado, nunca por uma apresentação tua. Na prática, a primeira frase soa a uma destas:

  • Passei três anos a gastar dinheiro em cremes até perceber isto.
  • Se dormes mal, o problema pode não ser o colchão.
  • Ninguém me avisou disto antes de comprar as minhas primeiras sapatilhas brancas.

Repara no que estas frases têm em comum: nenhuma diz o nome da marca, nenhuma começa por bom dia e todas prometem uma informação que ainda não deste. É esse o trabalho dos primeiros dois segundos.

Como se cobra

O trabalho paga-se por vídeo entregue, mas o erro clássico de quem começa é dar um número único e fechado, porque o dinheiro a sério não está no vídeo: está no que a marca faz com ele. Cada uma destas coisas é uma linha à parte no teu preço, sempre com prazo escrito:

  • Direitos de uso. A marca pôr o vídeo no perfil dela é uma coisa; usá-lo em anúncios pagos é outra, e paga-se à parte e com prazo, trinta, sessenta ou noventa dias. Sem prazo, o vídeo pode gerar vendas durante anos e tu recebeste uma vez.
  • Variações. Cada gancho ou versão extra do mesmo guião conta como entrega e cobra-se como tal.
  • Exclusividade. Se a marca não quer que graves para a concorrência dela, isso vale dinheiro e também tem prazo.
  • Anúncios na tua conta, os Spark Ads. Usam a tua cara e o teu perfil enquanto durarem, portanto pagam-se enquanto durarem.

Quanto cobrar em euros depende dos direitos, da marca e do tamanho do lote de vídeos que fechas, e qualquer tabela publicada estaria errada para o teu caso. A regra que interessa é uma: tudo o que a marca pede para lá de um vídeo entregue uma vez tem um preço e um prazo, combinados por escrito antes de gravar.

Estás a trabalhar por conta própria, portanto recibos: a maioria começa por abrir atividade no Portal das Finanças, na categoria B. E um detalhe que quase ninguém sabe: produtos oferecidos em troca de conteúdo contam como rendimento e declaram-se. Meia hora com um contabilista no início poupa dores de cabeça no fim do ano.

O profissionalismo que não se vê

Falamos com marcas todas as semanas, e o que as faz voltar a chamar uma criadora quase nunca é o vídeo ser mais bonito. É a parte invisível: entregar no prazo combinado, responder às mensagens no próprio dia, aparecer nas reuniões à hora e refazer um plano sem drama quando pedem. Muita gente perde o segundo trabalho aqui, não no primeiro vídeo.

Como entregar os ficheiros

Esta parte não aparece em nenhum artigo e pesa mais do que parece quando a marca decide se te volta a chamar. O que se entrega é material com que a equipa dela ainda possa trabalhar, e não um vídeo fechado.

  • Vertical, 9:16, em 4K se o teu telemóvel deixar.
  • Sem música, sem filtros e sem legendas coladas à imagem. A marca vai querer pôr a música dela e traduzir as legendas, e não consegue fazê-lo se estiverem queimadas no vídeo.
  • O áudio original no ficheiro, mesmo que mandes também uma versão já montada.
  • Os planos extra à parte, o chamado b-roll: as mãos a abrir a embalagem, o produto na bancada, o detalhe do rótulo. É com isto que se montam variações do anúncio sem te ter de voltar a chamar.
  • Ficheiros com nomes que se percebam, do género marca-formato-01.mp4, num link do Drive ou do WeTransfer que não expire na semana seguinte.

O que vemos mesmo nas candidaturas

Aqui podemos falar do lado de dentro: o que nos faz recusar uma candidatura não é falta de experiência, é desleixo: gente que nos escreve sem um único vídeo de UGC, sem nada no perfil ligado a isto, a tentar às três pancadas para ver se cola. Ler o guião em vez de o dizer por palavras próprias e desaparecer a meio de um trabalho entram na mesma gaveta.

O contrário também é verdade: já aceitámos criadoras cujos vídeos ainda pareciam tentativas de influencer, porque se via ali potencial e vontade. Dá para ver ao primeiro olhar quem leva isto a sério e quem está só a experimentar.

Não estamos à espera de perfeição. Estamos à procura de brio.

Se quiseres trabalhar comigo

Na LM Agency seleciono as criadoras com critério e não cobro nada para te juntares. A candidatura tem cinco passos, pede o teu perfil e um link com trabalho teu, e se houver encaixe falamos em poucos dias. Encontras tudo na página Para criadoras, no menu do site.

E se leste isto até ao fim e ainda não tens os três vídeos gravados, não te candidates já: grava-os primeiro, com produtos teus, e volta quando tiveres alguma coisa para mostrar. Estamos a preparar uma mentoria para quem está exatamente nesse ponto, e podes deixar o teu email na página da mentoria para saberes quando abre.

Três vídeos gravados?

Então estamos à tua espera