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Para criadoras6 min

Como fazer um portfólio de UGC que as marcas escolhem

Sou eu que abro os portfólios e escolho as criadoras para as minhas campanhas. O que vejo primeiro e o que me faz passar ao portfólio seguinte.

Telemóvel num tripé a gravar, com luzes desfocadas ao fundo.

Escolhi uma a uma as mais de 100 criadoras portuguesas da minha rede, e em cada campanha UGC volto a escolher entre elas as que servem o produto daquela marca, quase sempre da mesma maneira: abro o portfólio e carrego no primeiro vídeo. UGC, do inglês user generated content, são os vídeos que uma criadora grava com o produto na mão para a marca usar nos anúncios, e o portfólio é o sítio onde mostras os que já gravaste. Já escrevi aqui sobre os primeiros vídeos que vale a pena fazer e sobre os erros que impedem um vídeo de vender, e este artigo fica no passo do meio, que é juntar esses vídeos num sítio que alguém como eu abre, percorre de uma vez e fecha a saber se és a criadora certa.

Os primeiros segundos de cada vídeo

Não vejo todos os vídeos até ao fim, e quem vê os anúncios das marcas também não, por isso são os primeiros segundos que decidem se fico. O TikTok recomenda às marcas que a ideia principal do anúncio apareça nos primeiros três segundos, e é isso que procuro: o produto, o problema ou o resultado logo à entrada. Põe o teu melhor vídeo em primeiro lugar, porque é por ele que começo. Para cada vídeo escolhe também uma capa, a imagem que se vê antes do play, com a tua cara e o produto à vista, porque uma capa escura ou desfocada faz um bom vídeo parecer pior do que é.

Falar para a câmara sem parecer que estás a ler

Quando uma criadora fala, quero ouvir uma pessoa a contar uma coisa que lhe aconteceu, e percebo logo quando os olhos vão atrás de um texto no ecrã. O que resulta é saberes as poucas ideias que o vídeo tem de passar e dizê-las por palavras tuas, ao ritmo de uma mensagem de voz para uma amiga, a olhar para a lente e não para a tua cara. Um tropeção numa palavra ou um riso a meio não me fazem passar à frente, e muitas vezes são o que torna o vídeo credível. O que me faz desconfiar é uma voz sempre no mesmo tom e sem respirar, que soa a anúncio de rádio lido por alguém que nunca pegou no produto.

Luz, som e o produto nas mãos

Para a luz basta uma janela à tua frente, com a cara virada para ela, em vez da luz do teto, que deixa sombras debaixo dos olhos, ou de uma janela nas costas, que te deixa escura contra um fundo claro. O som pesa ainda mais, porque vejo os vídeos com som e ouço tudo, do eco de uma sala vazia ao frigorífico e à música por cima da voz. Grava numa divisão com cortinas, tapetes ou roupa à volta, que abafam o eco, com a janela fechada e o telemóvel perto de ti.

Depois procuro o produto na tua mão logo no início do vídeo, com o rótulo virado para a câmara e parado o tempo suficiente para se ler o nome. Quero ver-te a usá-lo de verdade, com a tampa a abrir, o creme nas costas da mão ou o aspirador a passar no tapete, e como as mãos aparecem em quase todos os planos, mãos limpas e unhas sem nada que distraia contam mais do que parece. É a primeira prova de que sabes mostrar um produto a quem nunca lhe pegou.

Quatro a seis vídeos, cada um de uma maneira

Um portfólio com vinte vídeos de cremes, todos gravados ao espelho da casa de banho e todos com a mesma abertura, diz-me só que sabes fazer bem uma coisa. Prefiro quatro a seis vídeos, cada um num formato diferente e, se possível, com outros produtos e noutros sítios, porque me deixam imaginar-te com o produto da próxima campanha, seja ele um sérum ou uma frigideira. É também assim que as marcas testam anúncios, e o próprio TikTok lhes diz que, sobretudo em testes, é sempre melhor usar vídeos com grandes diferenças entre si. Estes são os quatro formatos que mais gosto de encontrar:

  • Testemunho: contas a tua experiência com o produto como se respondesses a uma amiga que te perguntou se vale a pena.
  • Unboxing: abres a encomenda à frente da câmara e vais mostrando o que tiras lá de dentro, da embalagem ao próprio produto.
  • Demonstração: mostras de perto o produto a fazer o trabalho para que existe, com as tuas mãos sempre dentro do enquadramento.
  • Antes e depois: gravas o mesmo sítio com a mesma luz e o mesmo ângulo nos dois momentos, sem nenhum filtro a mudar a imagem entre um e outro.

Vídeos de treino contam, se disseres que são de treino

É normal um portfólio começar com vídeos de produtos que compraste ou que já tinhas em casa, gravados para treinar, e isso não te tira pontos comigo. Um vídeo de treino bem feito mostra-me exatamente o que preciso de saber, que é se consegues gravar para uma marca. O que me faz fechar o portfólio é ver esses mesmos vídeos apresentados como campanhas, com o logótipo da marca numa lista de clientes ou uma legenda a dizer que foram feitos para ela, quando a marca nunca encomendou nada.

Basta uma pergunta à marca para se saber a verdade, e quando desconfio de uma legenda passo a desconfiar de todas as outras. Por isso escreve por baixo de cada vídeo o que ele é, com uma etiqueta simples como «Vídeo de treino», «Produto comprado por mim», «Produto oferecido pela marca» ou «Feito a pedido da marca», esta última só quando foi mesmo assim. Uma criadora que diz isto com clareza mostra-me que posso confiar no que me diz a meio de uma campanha, e essa confiança pesa muito quando apresento alguém a uma marca.

O link, o contacto e o que me faz passar à frente

Põe um só link na bio e faz com que vá direto ao portfólio, sem passar por um menu com uma dúzia de botões: pode ser uma página simples, um site teu ou uma pasta do Google Drive aberta a quem tiver o link, desde que os vídeos abram ali mesmo, sem descarregar nada nem iniciar sessão. No perfil e no portfólio deixa à vista o teu email, a cidade onde vives, as línguas em que gravas e os produtos com que te sentes à vontade, porque uma mensagem privada minha perde-se no meio das outras e uma resposta uma semana depois já vem tarde para uma campanha que está a arrancar. Antes de mandares o link a alguém, abre-o numa janela anónima e confirma que não cai em nenhum destes pontos, que são os que me fazem passar ao portfólio seguinte:

  • O link da bio não abre, leva a uma página vazia ou pede acesso à pasta.
  • O primeiro vídeo é o mais fraco, ou nem sequer é UGC, como uma fotografia ou uma publicação de influenciadora.
  • Os vídeos estão na horizontal, ou a música está tão alta que não se ouve a tua voz.
  • Há filtros de beleza a mudar a pele e a cara, e por isso não se vê o que o produto faz.
  • Não encontro em lado nenhum o teu email nem outra forma de te contactar.

Nada disto te garante um lugar numa campanha, minha ou de outra pessoa, porque a escolha depende sempre do produto e daquilo de que a marca precisa naquele momento. O que garante é que quem abre o teu portfólio chega ao último vídeo a saber o que sabes fazer, e é isso que preciso de saber para pensar em ti. Grava os vídeos que te faltam, põe-lhes as etiquetas certas e volta a abrir o teu link como se fosses eu.

Fontes

  1. TikTok, Central de Ajuda: boas práticas criativas (junho de 2025)

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